Temática: Estado, Mercado e Consenso de Washington

março 28, 2015 às 9:54 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Apresentam-se dois texto, o primeiro são notas sobre o estado e o mercado, onde numa espécie de luta de boxe, round a round, vão se apresentando argumentos (golpes) para cada um dos lados, levando-nos ao final a uma reflexão sobre a importância dessas instituições e se, principalmente, o estado, fará ou não fará aquilo que deve.  No segundo texto encontramos uma ampla visão do chamado consenso de Washington (CW) e seu receituário imposto às débeis economias latino-americanas em nome de uma modernização centrada na visão: mais mercado, menos estado.

Barros (1994) apresenta suas ideias estruturando o texto primeiro em um inadequado diagnóstico das crises econômicas e políticas das nações latino-americanas, principalmente suas origens, e em seguida apresenta diversas contradições nas principais recomendações que o CW impõe a tais países.

O referido autor não permite que se impute o grande endividamento latino-americano apenas a fatores internos causados, por exemplo, por má gestão das ditaduras latinas, entretanto lembra a importância dos fatores externos, como a grande liquidez do dólar, incrementada ainda pelo excesso de divisas oriundas das exportações de petróleo e o fim do padrão ouro em 1975.  O autor mostra nesta perspectiva uma crítica ao posicionamento dos Estados Unidos quando visando interesses próprios permite que diversas nações arquem com as consequências de suas medidas unilaterais quando em situação de vantagem.  Mais à frente ao tratar soberania do mercado e a recomendação de “menos estado e mais mercado” como a única forma capaz de gerar e distribuir riqueza a crítica do autor recai sobre o retorno à teoria das vantagens comparativas que o CW impõe às frágeis economias latinas ao pregar a abertura aos mercados globais, claramente em situação de desvantagem, ele cita a exemplo uma orientação do Banco Mundial de 1989 “… recomendava que a inserção internacional do nosso país fosse feita pela revalorização da agricultura de exportação […] como se a vocação do Brasil, às vésperas do século XXI, pudesse voltar a ser a de exportador de produtos primários, como foi até 1950.” (Barros, 1994).  Nesta perspectiva ainda seguia o debate sobre a privatização ou a desnacionalização das grandes estatais sob o pretexto de ineficiência estatal o autor torna a lembrar que parte dessa justificativa se dá pela adoção equivocada de políticas de combate à inflação por contenção de preços públicos dos monopólios estatais, de forma que a gestão de tais empresas encontrava-se comprometida.  O que nos faz a refletir sobre o cenário atual em relação à nossa maior empresa e os últimos acontecimentos que tem feito seu valor de mercado desabar comprometendo assim seu potencial de investimento, tão importantes para o desenvolvimento do estado nacional.

Diante de tudo exposto verifica-se que o ideário neoliberal apregoado pelo CW está alinhado com a escola neoclássica da economia que é debatida e criticada nas notas sobre estado e mercado que encontramos em Przeworski (1994) e sua preocupação com o papel do estado frente às reformas.

Há nesse autor uma preocupação com o papel que o estado, e que modelo se adequará a ele para atingir seus objetivos. Por isso trata o assunto em perspectivas conflitantes.

O que pesa contra o mercado é que no mundo real, as economias são imperfeitas e as informações assimétricas o que gera impacto no equilíbrio ou na ação da “mão-invisível” de Smith sendo necessário a intervenção estatal para assegurar o equilíbrio, o que é criticado conforme Posner (1987 apud Przeworski, 1996) “o economista reconhece que o governo pode fazer algumas coisas melhor que o livre mercado, mas ele não tem nenhuma razão para acreditar que o processo democrático impedirá que o governo exceda os limites da intervenção ótima”.

Frente aos argumentos expostos nos dois trabalhos, nosso posicionamento é o de manter receio ao receituário do CW pelo simples fato de que, conforme é apresentado no livro Chutando a Escada (Chang, 2004) e também nos dois textos as nações ditas desenvolvidas impõem às menos desenvolvidas uma agenda que elas próprias não adotam como a questão de subsídios protecionistas “Assim parece que estamos diante de um ‘paradoxo’ […] Todos os países, mas principalmente os em desenvolvimento, cresceram muito mais rapidamente no período em que praticaram políticas ‘ruins’, entre 1960-1980 do que nas duas décadas seguintes quando passaram a praticar as ‘boas’. (Chang, 2004).  Some-se a isso os argumentos que encontramos também em outro livro O estado Empreendedor – desmascarando o mito do setor público VS. Privado de Mariana Mazzucato onde encontramos diversos exemplos de intervenção estatal para fomentar o setor privado “escolhendo vencedores” e investindo onde o mercado não mostra interesse, pelo menos inicialmente onde os investimentos são mais pesados e as aplicações dos resultados não são tão imediatas.  Alguns dos exemplos dessas ações foram os investimentos no algoritmo inicial do Google e também no sistema de reconhecimento de voz (SIRI) utilizado nos smartphones da Apple ou nas próprias telas finas tão comuns em nossos dispositivos eletrônicos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PRZERWORSKI, Adam.  Notas sobre o estado e o mercado.  Revista de Economia Política, Vol. 16, nº 3 (63), julho-setembro/96.

BATISTA, Paulo Nogueira. O consenso de Washington. A visão neoliberal dos problemas latino-americanos.  1994.

MAZZUCATO, Mariana. O estado empreendedor. Desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. Tradução: Elvira Serapicos. Editora Schwarcz. São Paulo, 2014.

CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada. A estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica. Trad: Luiz Antônio Oliveira de Araújo. Editora UNESP, 2004.

Deixe um comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: