Brient, J; Fuentes, León. Da Servidão Moderna. 2009.

dezembro 19, 2014 às 10:39 pm | Publicado em gespol, sociedade, vale a pena ver | Deixe um comentário
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“Chegou a nova leva de aprendizes Chegou a vez do nosso ritual E se você quiser entrar na tribo Aqui no nosso Belsen tropical
Ter carro do ano, TV a cores Pagar imposto, ter pistolão Ter filho na escola, férias na Europa Conta bancária, comprar feijão
Ser responsável, cristão convicto Cidadão modelo, burguês padrão Você tem que passar no vestibular”

Os versos acima retirados da canção Química da banda Legião Urbana traduzem perfeitamente a essência do documentário “Da servidão moderna” de Jean-François Brient e Victor León Fuentes, escrito em 2007 na Jamaica e produzido em 2009 na Colômbia.  A película tem o objetivo de revelar a condição do homem moderno como um escravo do regime econômico totalitário vigente.
Trata-se de uma grande crítica ao capitalismo e seu modo de produção alienante. 

O formato do documentário se dá pela exposição encadeada de: primeiro uma afirmação ou conceito (mercadoria, trabalho, moradia, alimentação, etc.) enquanto surge uma explicação da temática são exibidos em segundo plano imagens e recortes de outros documentários e filmes. 
Encontramos no filme a mesma crítica que fez Renato Russo ao escrever Química, que apresenta o vestibular como o pré-requisito básico para que o cidadão se enquadre em um padrão vigente, o sistema que lhes garantirá adquirir as mercadorias e bens que amplificarão seu status, mas contudo o levarão a depreender-se da essência de sua existência.  Isto é as mercadorias e bens que o cidadão possui lhe posicionarão na sociedade contemporânea, onde o ter substituiu o ser.
O autor considera a servidão moderna um ato voluntário dando a idéia que a qualquer momento seria possível ao cidadão desvencilhar-se de tal sistema se assim o quiser, o que obviamente não se consegue de forma ligeira e fácil.  “Porque não é o homem mas o mundo que se tornou um anormal.” (Antonin Artaud).
A realidade que os autores apresentam em relação ao sistema de produção e de mercados, suas consequências são analisadas por Karl Polanyi da seguinte forma “Pode-se afirmar que a economia de mercado criou um novo tipo de sociedade.  O sistema produtivo ou econômico está nas mãos de um aparelho automatizado, ou seja, um mecanismo institucionalizado controla os seres humanos em suas atividades cotidianas assim como os recursos naturais.  (Polanyi apud Machado).
O documentário segue trabalhando sempre os conceitos de alienação e fetiche em Karl Marx. Por exemplo em uma das críticas à mercadoria e ao consumismo desenfreado o autor prega que “Despoja-se de seu trabalho aquele que a produz e despoja-se de sua vida aquele que a consome”. 
De forma semelhante ao nazismo o sistema dominante de produção vende o trabalho como libertador. No entanto é este mesmo trabalho que aliena o homem do próprio gênero humano “O papel do homem se confunde com o da máquina nas usinas ou o computador no escritório”.
Após tantas evidências, alguns podem questionar tais argumentos buscando nos defensores do modelo vigente como Hayek em seu livro que em seu livro A caminho da Servidão tece os seguintes argumentos sobre o dinheiro “Se lutamos pelo dinheiro, é porque ele nos permite escolher da forma mais ampla como melhor desfrutar os resultados de nossos esforços”. Mais à frente “É o dinheiro que, na sociedade atual, oferece ao homem pobre uma gama de escolhas extraordinariamente vasta, bem maior do que aquela que há poucas gerações se oferecia aos ricos.”, não é por acaso que na visão do documentário o dinheiro é visto como um Deus a ser adorado. 
Por fim, não será difícil para expectador concordar com as evidências encontradas na obra, que assim consegue seu objetivo proposto, o de conduzir o cidadão a perceber as maneiras de mistificação que ocultam sua condição subserviente, contudo nesse momento em que o expectador se questiona como se desvencilhar do sistema, não encontra na obra uma resposta imediata. 

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